O que eu aprendi me tornando um DJ profissional

Eu me lembro exatamente onde e o que estava fazendo quando decidi ser um DJ profissional. Eu tinha acabado de sair do L&M Dance Party, considerado por muitos a 1ª Rave do Brasil. O ano? 1992.

Apesar de já brincar com os toca-discos, eu ainda não tinha uma ideia muito clara sobre o meu futuro profissional. Ver as performances de DJs e artistas como Mau Mau, Mark Kamins, Moby e Altern-8 foi decisivo na minha escolha.

Passados 26 anos, muitos dos motivos pelos quais eu entrei nessa ainda estão vivos. Apesar de hoje eu escrever mais sobre música eletrônica do que tocar, a paixão continua a mesma. É como um namoro que começa todo dia, a cada track novo ou artista que você descobre. O coração tá sempre palpitando, aquele arrepio de ouvir uma música diferente vem sem aviso… mesmo que esse artista que você nunca ouviu tenha gravado há 30, 40 anos.

Então, eu resolvi listar algumas das coisas que eu aprendi desde que me tornei um DJ. Tenho certeza de que você vai se identificar com a maioria delas, se não com todas. Com a vantagem de que, hoje, esse trabalho é muito mais aceito socialmente do que há vinte e tantos anos atrás. Me acompanha?

 

Você conhece pessoas. Muitas pessoas.

É o Kaskade, mas pode ser você

Um dos aspectos mais legais de ser um DJ profissional é a quantidade de gente que você conhece. Melhor: muitas delas serão suas amigas e te acompanharão por muito tempo. Se você gosta de conhecer gente ou quer ampliar sua rede de contatos, a profissão é o seu número.

Você é o oposto disso? Ser um DJ profissional também pode te ajudar. Ao se colocar o tempo todo em contato com pessoas, você pode vencer a timidez e aprender a se relacionar melhor. Atenção, pais que têm filhos tímidos: essa é uma excelente maneira de ensinar seu filho a interagir.

 

Você amplia seu conhecimento. Não só o musical.

É isso mesmo que você tá pensando

Ser um DJ profissional exige que você aprenda ao menos um pouco de teoria musical, métrica, pesquisa, curadoria, relações públicas, planejamento. Afia as suas habilidades em “ler” pessoas, exige uma tomada de decisão a cada música tocada. E todas essas habilidades são úteis dentro e fora da cabine de som e da pista. Eu posso garantir que os anos de discotecagem melhoraram e muito as minhas habilidades como vendedor, por exemplo. O que se aprende ali pode e deve ser levado para outras áreas da sua vida. Vantagem bônus: você nunca mais vai depender das sugestões do Spotify pra ouvir música nova!

 

Tédio não é uma opção para um DJ Profissional.

Olha a cara de entediado do Martin Garrix. Só que não.

A vida de um DJ profissional é uma correria só. Entre fechar datas, trabalhar sua autopromoção, gravar sets, produzir músicas e/ou remixes e tocar nos eventos, sobra pouco tempo. E mesmo que você seja residente de uma festa ou club, posso garantir: uma noite nunca é igual à outra – e isso só torna as coisas ainda mais interessantes. Toda festa é a primeira. O resultado é que a única rotina que você terá é a falta de rotina – e isso é divertidíssimo!

 

Quem tem limite é município.

As opções de quem quer seguir carreira como DJ são inúmeras. Você pode trabalhar exclusivamente com eventos como casamentos e eventos sociais (dica: esse é um ramo lucrativo); pode ser residente de um club ou festa; se você conseguir se estabelecer como um grande profissional, pode viver tocando nos melhores lugares do Brasil, e, por que não, do mundo. Ainda pode fazer curadoria musical para lojas, empresas de streaming, desfiles de moda. Se você também for produtor, só melhora. Você pode fazer trilhas para eventos, games, filmes… o DJ e produtor holandês Junkie XL, que ficou famoso uns anos atrás com um remix de A Little Less Conversation, de Elvis Presley, hoje vive de fazer trilhas sonoras – como a de God Of War e Deadpool. Nada mal, né? Mas ainda não acabou. Você pode fazer remixes e edits para artistas mais famosos que você. Ou, ainda, trabalhar em colaborações com eles. A carreira de DJ e/ou produtor é um mapa com muitas estradas pra percorrer.

 

Você descobre lugares que nunca imaginou.

 E isso acontece até mesmo sem sair de onde você mora. Me lembro de cada lugar inusitado que eu visitei como frequentador, e os que conheci quando comecei a tocar. Você pode se surpreender com um super club em SC, um bar mega alternativo escondido em uma portinha em SP, uma sociedade no interior do PR que tem um salão de baile de dar inveja a muita balada na capital. Quanto mais você toca, mais chance tem de topar com esses lugares incríveis a cada viagem.

 

A maneira como você ouve música muda para sempre.

 E isso não é ruim. Você aprende a ouvir mais e melhor, e o tempo todo. Você entende a história da música, as ligações entre os gêneros, a importância social de uma pista. Aprende sobre os diferentes movimentos culturais que acabaram no surgimento do estilo musical que você mais gosta. Começa a ouvir coisas que você nem imaginava que existiam, ou que você não acreditava que iria gostar um dia. Percebe a música como aquilo que ela realmente é – uma linguagem.

 

Você muda a maneira como se relaciona com as pessoas.

 Sabe essa música aqui?

Então, é isso que você faz com as pessoas quando toca. Um amigo me disse há anos atrás que o DJ é um mediador de bons sentimentos para um público, e eu concordo – tanto que uso essa definição até hoje. Não é difícil entender isso, basta pensar na sua última balada ou festa e lembrar da sensação que você experimentou nela. Voltemos um pouco pro começo desse texto: eu disse que foi na saída de uma rave que eu decidi que iria me tornar um DJ profissional. Eu queria fazer com que as pessoas se sentissem tão bem quanto eu me senti naquela noite. Além disso, eu queria (ainda quero) compartilhar as coisas que eu descubro nas minhas pesquisas musicais. E a sensação de pertencimento, de fazer parte de algo que significa alguma coisa pra uma ou 20 mil pessoas é indescritível. Só estando lá pra saber.

 

E papel do ensino nesse lance de se tornar DJ Profissional?

Quando eu comecei a tocar, só havia um curso de DJ na cidade, e eu não tinha condições de pagar por ele. A Internet ainda estava engatinhando. CDs não existiam, então CDJs e afins eram ficção científica. Música digital? Softwares de DJ e de produção? Talvez na cabeça de alguém (que concretizou esses sonhos, aos poucos).

Mas voltemos a hoje: internet super-rápida, tantos softwares e dispositivos para você discotecar quanto a sua imaginação permitir, programas que emulam um estúdio de gravação em um notebook que cabe em um envelope, CDs são coisa do passado. Com tanto acesso e facilidades, é fácil imaginar que a tecnologia pode substituir de alguma maneira a formação, certo?

Errado.

Os fundamentos da discotecagem até podem ser aprendidos online, mas a quantidade de informação ruim é tanta que provavelmente você vai pular ou aprender errado alguma parte desse processo. Sim, a tecnologia pode te ajudar a ser um DJ melhor, um produtor melhor, mas sozinha a tecnologia não faz nada. Você jamais vai entender como o Sync funciona de verdade se não souber como fazer beatmatch de ouvido. A última versão do Ableton e todos os plug-ins do mundo não vão servir pra nada se você não entender como e pra que cada um funciona. No máximo, você vai fazer ruído e não música.

O ponto é: existe muita informação sim, e boa. O problema é que ela é tanta que é muito, muito fácil se perder nela e não sair do lugar. Outra coisa que a tecnologia não te traz é o contato direto com quem faz a coisa acontecer de verdade. Por exemplo: em uma universidade, normalmente os professores são profissionais que atuam ou atuaram e se destacaram em suas áreas.

Em um curso de DJ ou Produção musical não é diferente: você entra em contato com pessoas do meio, que são referência no que fazem. Acho desnecessário explicar a diferença entre aprender assim ou em tutoriais do YouTube. Mas tem um outro aspecto que faz toda a diferença aqui: em um curso presencial, você estará cercado de gente que pensa e sente o mesmo que você em relação à música. Pessoalmente, você cria laços e a sua primeira rede de contatos profissional. Todo método de aprendizagem tem seu mérito, mas, se eu posso dar uma dica, é esta: se você pretende se tornar um DJ profissional, seu caminho passa necessariamente por um bom curso. Pense nisso como uma viagem com ou sem GPS: você até pode chegar no destino, mas com um mapa você escolhe as melhores estradas e ainda descobre os pontos turísticos!

Ter escolhido a profissão de DJ me trouxe muita coisa boa – na verdade, continua trazendo. E eu espero que esse texto te ajude a embarcar nessa se for a sua vontade. Obrigado e até a próxima! 😉