Produção musical: limitando para ser criativo e outras ideias

Lindão, né? Então, você não precisa dele

Historicamente, não faz muito tempo que os softwares de produção musical tomaram conta do mercado. Mas, ao mesmo tempo em que trouxeram um mundo de possibilidades, a quantidade de informação e de opções aumentou tanto que é fácil ver por aí gente completamente perdida em suas produções.

A impressão geral é de que a criatividade está limitada pelo excesso de opções, e não pela falta. É fácil passar horas e horas tentando achar o kick perfeito, ou fazendo a compressão de um track. Basta dar uma olhada para trás e ver como era a produção musical há trinta anos atrás – haviam muito menos recursos, e, mesmo assim, muitos dos clássicos da música eletrônica foram feitos nesse período.

Independentemente de você fazer música há vários anos ou ser um iniciante é fácil ficar preso a um método. Você fica fazendo tudo o que sempre fez, da mesma maneira de sempre.

Isso é bom, mas se torna chato. Você começa a perder o aspecto desafiador da produção musical.

Para combater isso precisamos experimentar. Experimentação é o que gera criatividade.

Neste post, listamos algumas ideias que você pode usar para ser mais criativo. Elas podem até não aumentar sua capacidade criativa, mas vão forçá-lo a ser mais criativo durante o processo de composição. A chave aqui é fugir das regras.

Quando há menos opções, você deve pensar em maneiras criativas de contornar seus problemas de produção musical, ou simplesmente aceita-los e seguir adiante. A realidade é que você já tem o que precisa – sua criatividade – e não tem porque depender de um hardware ou de um plugin para fazer as coisas acontecerem. Três exemplos comuns de “travamento” que os produtores musicas encontram são:

 

  • Paralisia por escolha: Você já passou horas e horas testando cada preset dos seus plug-ins ou sintetizadores? Se sim, pare de perder tempo! Escolha um e siga em frente. É melhor ter uma música com sons não tão bons, mas que possam ser alterados depois, do que um amontoado de sons fantásticos, mas sem música.

 

  • Síndrome do equipamento: “Quando eu comprar o equipamento X, aí sim vou poder terminar o meu projeto”. A realidade é que você não precisa do equipamento X para completar sua produção musical. Existe um mundo de opções para você usar, e este é o tipo de limitação que você não precisa agora. Se você tem um computador que dê conta do trabalho e um bom DAW você está anos-luz à frente dos produtores de vinte ou trinta anos atrás.

 

  • Pesquisa e educação sem tudo isso em prática: Aqui, o importante é o constante equilíbrio, pois é muito fácil estudarmos e praticarmos alguma técnica para sempre, sem nunca colocarmos este conhecimento em prática. Então, após estudar intensivamente algum tópico aplique isso em uma música sua. Mais: nunca pense que o seu conhecimento não é suficiente para criar o que você quer. Pare de pensar assim.

 

Quando limitar é bom

Ao contrário do que costumamos imaginar, as limitações, quando bem colocadas, podem ser realmente úteis, especialmente quando queremos obter um resultado rápido. Ter alguma ideia de onde você quer chegar com a sua produção musical é muito melhor do que não ter ideia alguma. Como exemplo, sentar para escrever com um tema é mais produtivo que ficar esperando o tema aparecer na sua cabeça. Aqui estão algumas maneiras de se limitar para dar uma forcinha para a criatividade:

 

Decida o seu objetivo antes de começar

 Começar a produzir sem uma ideia definida é mais ou menos como pegar uma estrada sem um rumo certo – pode ser agradável, mas em algum momento você vai se perder ou ficar sem combustível. Definir um objetivo para a sua produção musical é como ligar o GPS: a viagem continua divertida, mas você sabe para onde está indo e em quanto tempo vai chegar no destino.

E um jeito legal de fazer isso é organizando a estrutura de seu track. Você pode pensar: “Mas como eu organizo algo que eu ainda não fiz? Eu não deveria ter ideias primeiro?

Essa é a parte divertida: não necessariamente. Aqui tem um exemplo:

Crie 3 a 5 espaços para os instrumentos no seu DAW (por exemplo, bateria, baixo, melodia, acordes);

Após, você cria clipes MIDI em branco para colocar, somente depois, os instrumentos, ou, ainda, os seus packs de samples.

Aí, você organiza esses clipes em frases, para esboçar a estrutura básica do track.

A melhor coisa sobre esse método é que ele exige que você pense no projeto como um todo, desde o início. Muitas vezes ficamos tão presos em um loop específico, ou algo do gênero, que nos esquecemos de fazer uma música completa.

 

Defina limites de tempo para a sua produção musical

Já jogou xadrez assim? A ideia é mais ou menos essa

 

Quando você tem um prazo para cumprir, você se concentra apenas nas tarefas que são importantes para a conclusão do trabalho. Não existe exemplo melhor do que aquele trabalho da faculdade que você virou a noite fazendo, para entregar a tempo. Esse é o poder limitador do tempo – e ele pode te ajudar. Então, estabeleça um prazo para terminar a sua nova produção musical.

Você pode, por exemplo, se impor um limite de uma hora para fazer um track. Uma das principais razões pelas quais os produtores não terminam uma música é porque eles nunca definem um prazo. Não há pressão real para que eles terminem. Eles podem até achar que precisam terminar, podem querer terminar, mas, lá no fundo, eles sabem que, se não terminarem, a vida continua normalmente.

Assim, sempre que atingem um momento desafiador no processo de criação musical, eles desistem e passam para um novo projeto.

Dar a si mesmo um tempo determinado para fazer algo te obriga a agir em vez de pensar. Quando você tem 60 minutos para fazer uma música você não tem tempo para brincar. Você não tem tempo para pensar se deve ou não usar um kick diferente e, se for o caso, basta consertá-lo mais tarde.

 

Limite suas opções de softwares e equipamentos

Acredite, no começo você não vai precisar de muito mais que isso

 A maioria de nós tem o péssimo hábito de amontoar um monte de efeitos, plug-ins e instrumentos virtuais antes mesmo de saber o que fazer com eles. Ao invés disso, permita-se usar só um kit de bateria, um pacote de samples e um ou dois sintetizadores. Isso vai forçá-lo a continuar e não ficar preso tentando achar os sons perfeitos – lembre-se de que você sempre pode consertar isso depois.

Um jeito simples de fazer isso é limitar os seus instrumentos.

É natural supor que quanto mais opções tivermos, mais criativos seremos, mas isso, quase sempre, leva a ajustes intermináveis, em vez de criar música real. Então, uma das melhores maneiras de ser criativo é impor severas limitações a nós mesmos.

Se forçar a trabalhar com um número definido de instrumentos é uma ótima maneira de ser criativo. Isso faz com que você mude o seu jeito de pensar: como posso reforçar este som sem adicionar uma nova camada? Quais efeitos posso usar para tornar essa seção de bateria mais interessante se ela é apenas um kick e um chimbal?

Limite-se a apenas cinco instrumentos. Neste caso, a bateria não conta como um instrumento, mas apenas algumas peças dela, por exemplo:

Kick

Hat

Clap

Baixo

Piano

São apenas cinco instrumentos.

Para alguns de vocês, isso pode parecer ridículo e até impossível de se fazer. Isso significa que, na realidade, você precisa se esforçar mais do que nunca.

 

Se obrigue a pensar diferente

Outro fator comum de travamento na hora de produzir é ficar com aquela ideia rodando na cabeça e não sair dela. Mas existem maneiras de fugir disso, como essas ideias aqui:

 

A dica fora da curva na produção musical: Use sons que você odeia

Pode ser aquele seu vizinho chato roncando também. Seja criativo!

 

É fácil vasculhar pacotes de samples e encontrar sons que se encaixam perfeitamente com as suas produções, e você deve fazer isso ao criar novos tracks. Nós sempre vamos preferir usar material de qualidade, e com o qual nos identificamos musicalmente.

Para ser criativo, porém, não há nada como um desafio. Por que não usar um som que você odeia? Pode ser um preset, um sample de bateria e até uma frase vocal. Encontre esse som, analise-o por um momento e, em seguida, tente descobrir como fazê-lo funcionar com o resto da sua faixa.

Mas você não precisa fazer isso com todos os seus projetos. Trate a ideia como um tipo de exercício, como uma prática para melhorar seu raciocínio e criatividade.

 

Trabalhe em um ritmo diferente

Não importa se você é um purista do trance ou um produtor de progressive house que nunca muda o BPM, considere criar músicas em um ritmo diferente.

Você pode fazer trance em 110BPM, assim como você pode fazer um house progressivo em 132BPM, por exemplo. Alterar e alternar o ritmo, muitas vezes, gera ideias e sons diferentes. Mais do que isso: é muito divertido! De novo, a ideia, aqui, é reforçar a criatividade e explorar outras possibilidades, é mais um exercício do que qualquer outra coisa.

Crie uma música com um pack de samples – ou não

 A maioria dos produtores de música eletrônica terá um número infinito de pack de samples, mas usam sempre os mesmos timbres e efeitos na maior parte das vezes.

Por que não tentar criar uma música inteira a partir de um único pack de samples? Fazer isso não apenas fará com que sua música soe mais coesa, mas, também, diminuirá a quantidade de escolhas que você terá que fazer ao escolher os samples.

Nesse caso, quanto menor o pacote de samples, melhor. Evite usar kits de construção, linhas de baixo pré-fabricadas e loops melódicos. Dê preferência para one-shots e FX.

Ah, mas você já faz isso? Então, inverta a lógica e faça os seus tracks do zero, criando seus próprios timbres e samples, e esqueça os packs. Tudo o que fizer você sair da zona de conforto é válido.

 

Misture os gêneros

 Misturar gêneros é uma excelente maneira de exercitar a criatividade. Você gosta de produzir house? Então, que tal usar uns baixos sujos de Drum’n’Bass nele? Prefere trance? Por que não experimentar uns timbres de dubstep no track? Este é um processo um pouco mais complexo, mas que pode render bons resultados. Arrisque-se!

 

Por último, mas fundamental: disciplina é mais importante que inspiração

 E o motivo é bem simples: estabelecer uma rotina de produção elimina, de uma vez por todas, o desgaste de ter que começar do zero algumas partes do processo, toda vez que você for produzir. É mais ou menos como começar a fazer exercício. Você pode até achar chato no começo, mas depois de um tempo fica se perguntando porque não começou antes – e, como no exercício, você só melhora mais e mais, a cada dia.

 E quando você perceber, ficou tão divertido produzir que você não para mais.

Para isso, facilite as coisas pra você mesmo:

Tire um horário do dia, ou um dia específico da semana, para isso e não faça outra coisa nesse tempo. Isso inclui deixar o celular e a internet de lado, por algumas horas. Você vai se surpreender com o salto na qualidade das suas produções.

 Deixe todo o seu equipo pronto para uso a qualquer momento. Isso evita que você adie o trabalho e é um poderoso gatilho mental.

Anote suas ideias. Crie o hábito de usar um bloco de notas. Use um app no celular ou mande mensagens de áudio pra você mesmo. O que importa, aqui, é não perder nenhuma ideia, e tê-las à mão na hora que precisar.

Ser criativo é difícil e, na maioria das vezes, você é seu maior inimigo na hora de produzir. Tomar decisões é desgastante, então, faça um favor a si mesmo e limite suas opções. É mais fácil escolher entre duas ou três opções do que entre duzentas, ou três mil. Limite suas escolhas e sua criatividade vai aumentar, assim como a sua quantidade de produções finalizadas.

E aí? O que você faz para ser mais criativo?