É normal que a maioria das pessoas que pensam em se tornar produtores de música eletrônica não tenham uma ideia muito clara do que fazer. O que aprender primeiro, ou onde focar o seu tempo. Nessa fase, o maior desejo de quem quer aprender é algum tipo de projeto básico, um roteiro do que fazer para deixar de ser um iniciante e ser um verdadeiro produtor de música eletrônica.
Se você é uma dessas pessoas, inevitavelmente você passará, está passando ou passou por uma das fases que vamos explicar agora. Aproveitando, explicamos um pouco do que fazer em cada uma delas para agilizar a sua curva de aprendizagem. Vamos lá?
- Escolha e aprendizagem da sua DAW
Uma das maiores dores de cabeça para quem quer se tornar produtor de música eletrônica é escolher sua Estação de Trabalho Digital (em inglês, Digital Audio Workstation, ou DAW – que é como vamos chamar os softwares de produção daqui em diante, para facilitar). Se você está nessa fase, já deve ter pesquisado ou ouvido falar dos mais populares, como Ableton Live, FL Studio, Cubase e Logic Pro.
A grande dúvida aqui é qual escolher. Leve esses pontos em consideração:
– Esqueça essa de “melhor DAW”. Tudo se resume a preferência pessoal. Todos os DAWs no mercado podem te entregar um bom resultado final.
– Ao invés de perder tempo com isso, ache o melhor para você, ou seja: aquele em que você não vai perder tempo demais para aprender a usar, e usar o tempo economizado para aprender mais sobre produção.
– Lembre-se de que você sempre pode mudar de DAW se não estiver confortável com o escolheu primeiro ou sentir necessidade de mudança.
Se você não pesquisou, e não faz a mínima ideia de por onde começar, pense nisso:
– O que os seus amigos usam?
Se você tem amigos que já produzem, talvez seja uma boa ideia escolher o mesmo DAW que eles – assim, você pode dividir experiências e aprender junto com eles.
– Determine um orçamento
Todas as DAWs valem uma boa grana, e você terá que investir nisso também. Mas a faixa de preço costuma variar. Se seu orçamento está apertado, a maioria das DAWs tem versões Light, que embora possuam menos recursos, são o suficiente para que você comece a produzir.
– Tenha em mente a utilização da sua DAW
Vai tocar ao vivo? Talvez o Ableton seja a escolha adequada para você. Quer fazer trabalhos complexos, e usar o padrão da indústria? Pro Tools é uma boa escolha. Então, considere o que você pretende fazer e procure a ferramenta que mais se encaixa nas suas pretensões.
O melhor conselho que podemos dar aqui é: escolha um e comece a usar. Se você levar mais do que um dia para escolher, você está perdendo o foco. Ableton Live e FL Studio têm versões de teste gratuitas – é uma boa maneira de começar antes de investir. Mais uma vez, não perca tempo demais nisso – você vai nos agradecer depois.
Preciso de mais algum equipamento?
Existem duas respostas para essa pergunta – a comum e a verdadeira. A verdadeira é que se se você tem um computador e um par de fones ou caixas de computador, não, não precisa. Dá para começar assim mesmo. A comum é que você precisa de no mínimo um par de fones decente e talvez um controlador MIDI. Na maioria das vezes, o melhor investimento que você pode fazer depois de escolher a DAW é mesmo comprar um bom par de fones, mas não dependa disso para aprender a produzir, ou você estará arrumando desculpas para não fazer.
- Aprender a usar sua DAW
Depois de baixar sua DAW, você ficará tentado a começar imediatamente a criar uma música.
Mas é quase certo que essa atitude irá gerar confusão, frustração, e mais perigoso, fazer você acreditar que se tornar um produtor de música eletrônica é difícil e não é para você. Sua prioridade depois de escolher a sua DAW é aprender a usá-la! As duas melhores maneiras de se fazer isso são um curso de produção de música eletrônica e a leitura do manual da DAW.
Depois de se familiarizar com a sua DAW, a próxima fase é a da experimentação. O único objetivo aqui é se divertir e adquirir experiência. Aprenda como criar uma linha de kicks, tente recriar uma melodia que você conhece. Depois, tente criar uma faixa completa – isso é essencial para que você adquira o hábito de terminar a música, mesmo que para você ela não esteja suficientemente boa. Caso contrário, você pode não ser capaz de terminá-la mais tarde. Ao menos no começo, resista à ideia de sair mostrando para todo mundo suas produções. Não que haja algum mal nisso, mas acredite, é uma distração que vai tirar seu foco.
- Aprofundamento da aprendizagem
Essa é a fase em que você começará a se tornar um produtor de música eletrônica de verdade. É uma das fases que leva mais tempo também, mas isso varia de pessoa para pessoa. Nessa fase, você aprende os fundamentos da produção: teoria musical, estrutura, arranjo, mixagem. Como acabamos de dizer, são fundamentos, então não tem como pular essa fase. Não quer dizer que ela não seja divertida, pelo contrário – você ficará empolgado quando perceber suas habilidades melhorando a cada dia. Mais uma vez, um bom curso de produção ajuda muito nessa fase.
No entanto, essa fase esconde uma armadilha bastante comum: a armadilha do perfeccionismo, ou armadilha da obra-prima. Ter uma atitude perfeccionista não só inibe o aprendizado como destrói a sua autoestima. Em vez disso, se habitue a criar um grande volume de trabalho, e termine do jeito que você pode ou consegue. Foque em fazer um bom acabamento, mas não se afobe – mesmo com um um crescimento rápido do seu conhecimento, se cobrar demais não vai fazer o seu trabalho melhorar. Nessa fase, quantidade vale mais que qualidade. Sem pressão, você irá aprender muito mais rápido.
Foque no que te motiva e nos seus objetivos, seja consistente e paciente, e os resultados virão.
Existem muitas outras fases pelas quais um produtor iniciante de música eletrônica passa, mas optamos por falar sobre esses por acharmos que são mais relevantes.
Agora que você já tem uma ideia melhor de como a produção de música eletrônica funciona, dá uma olhada nessas técnicas e dicas que separamos pra você – temos certeza que algumas (se não todas!) serão bem úteis.
Técnicas de produção musical eletrônica que você não deve ignorar
Produção musical é um trabalho duro. E mesmo quando é uma rotina diária, é fácil esquecer técnicas e elementos importantes que podem fazer a diferença na sua track. A produção é uma coisa tão complexa que é quase impossível manter o controle de absolutamente tudo ao se fazer uma faixa. É por isso que ter amigos por perto para dar opiniões honestas, ou até mesmo testar sua track em tantos aparelhos quanto possível, ajuda a encontrar falhas que passaram batido nas primeiras sessões de gravação.
Aqui estão algumas dicas importantes que você deve ter em mente na próxima vez em que você for produzir. Vamos ao que interessa:
Não dependa de loops de percussão
Loops e samples sempre são uma boa ideia em produção. No entanto, você vai gastar bastante tempo testando loops que se encaixem com o que você já produziu. O ideal é você criar o hábito de gravar seus loops de percussão ou bateria. Assim, você dá à percussão o mesmo groove do resto da track e fica livre para criar outros ritmos. Por falar em ritmo, uma dica adicional: não deixe o seu kick todo com a mesma velocidade – ele vai ficar reto demais, e sem vida. Faça uma pequena variação de velocidade e tom para trazer o groove à sua track!
Aprenda ouvindo as tracks dos seus produtores favoritos
Um produtor iniciante tem muito a aprender, e um dos aspectos mais negligenciados entre os novatos é o arranjo. Infelizmente, há uma espécie de padronização da música feita hoje – e entender os diferentes tipos de arranjo podem te ajudar a fugir do óbvio. Por exemplo, a estrutura mais comum da dance music é uma batida 4/4 disposta em intro>refrão>verso>refrão>ponte>refrão>outro. Esse tipo de arranjo é uma espécie de rascunho para produtores e a melhor maneira de aprender a variar essa estrutura é ouvindo tracks de artistas que são uma referência para você. Uma boa técnica de aprendizado é você jogar essa track de referência no seu DAW, cortá-la nomeando cada seção corretamente, e depois improvisando entre cada seção.
Espaçamento, tensão e soltura
Toda boa produção brinca com o espaçamento – seja entre as notas, instrumentos, efeitos ou até mesmo entre as seções da track. Uma boa ideia é se livrar do que é exagerado ou desnecessário na faixa, ou adicionar espaços de meio ou um segundo entre algumas seções – isso dá um efeito de tensão e soltura bastante interessante.
Faça uma melodia grudenta
A melodia é um dos aspectos que costumam definir uma boa produção. Uma melodia grudenta tem duas características: é repetitiva (o que prende a atenção do ouvinte) e variada (mantém o ouvinte interessado). Melodias simples demais podem não ser exatamente agradáveis para se ouvir no dia a dia, mas em uma pista isso não é um problema.
Humanize os sons
A vivacidade de uma track vem do toque humano no ritmo e no groove – e isso nem sempre pode ser replicado naturalmente por um DAW. Mas existem algumas maneiras de deixar o som mais orgânico:
- Usar loops de percussão (de preferência gravados por você mesmo) podem dar ritmo a um loop reto e plano demais;
- Você pode humanizar as melodias tocando as notas quase na batida. Grave várias vezes, e depois escolha a versão que soa mais natural, ao mesmo tempo em que se encaixa com o resto da track.
Há uma série de coisas para serem lembradas durante uma produção – muito mais do que listamos aqui. No começo, é bem provável que você não pegará tudo, mas com o tempo você vai identificar as lacunas e saberá como preenchê-las.
Mas calma, que a gente separou mais umas pra você – vem junto!
Dicas rápidas para produção de música eletrônica
Sem firulas, esta é uma lista com várias dicas rápidas, para você lembrar e usar sempre que precisar. Vamos lá?
- Confie no seu gosto. Não se subestime. Aliás, porque você faria isso?
- Não critique música pop só por ego. Na realidade, você pode aprender algo com ela. E é sábio aprender com música que milhões de pessoas ouvem.
- Usar loops não te torna um fake. O que interessa é o resultado final. Olhe para a indústria de jogos, por exemplo – quantos desenvolvedores usam Unity? Ou Unreal? O que interessa é o jogo – ou a música.
- A mesma coisa para samples.
- Arrume um bom par de fones ou monitores assim que puder. Resposta de frequência é importante. Graves são importantes. A gente fala disso de novo daqui a pouco.
- Mixagem não é um bicho de sete cabeças. Vá em frente e faça mixagens ruins. Com o tempo, você fará mixagens boas.
- Masterização não é um bicho de sete cabeças. Precisa repetir?
- Compre bons pacotes de samples assim que possível. Isso vai ajudar mais do que você imagina.
- Aceite músicas que você não entende ou não gosta. Em algum momento, você vai achar algo que gosta ali.
- Repetição é importante e manter as coisas simples é fundamental, mas não use isso como desculpa para deixar sua track pobre.
- Ninguém se importa até que você faça. Então, trabalhe nas suas produções e lance-as.
- O fato de que pode não haver mercado para as suas produções não pode te preocupar. Você se preocupa?
- Se você não gosta de ouvir sua música, você está fazendo algo errado.
- Comece a criar uma maneira confiável de se conectar com outras pessoas que gostam da sua música. Lista de e-mails é um bom começo.
- Grátis não precisa ser literalmente grátis. Dê as suas faixas com um propósito. Likes no Facebook, no Soundcloud, lista de e-mails…
- Pense sobre onde as pessoas vão ouvir sua música. E quem vai ouvir? Isso pode te ajudar na hora de produzir.
- Não resista à aprendizagem de teoria musical. Ela é um mapa. Você até pode navegar sem ela, mas conhecer acelera o processo.
- Não se compare a artistas profissionais. Principalmente no início.
- Mas foque na qualidade deles. De qualquer forma, não deixe que isso te impeça de fazer nada.
- Não importa que DAW você usa. Então não use isso como desculpa para não fazer. Dá para fazer música com software 100% free. Do mesmo jeito, pode ser que você use aquele sintetizador caríssimo que você comprou porque seu ídolo usa apenas uma vez ou duas.
- Aceite que as coisas acontecem no seu tempo. Bons artistas levaram tempo para que seu trabalho fosse reconhecido. Então foque no médio e longo prazo, não no sucesso da noite para o dia. Seu trabalho ficará mais sólido.
- Existem quatro níveis de equipamento de áudio:
- Barato
- Para o consumidor comum, mas bom o suficiente para uso profissional
- “Pro”, que é bem melhor que o número dois
- Caro
O número dois é o suficiente. Quando você estiver vivendo de música, aí sim pode pensar em investir mais.
Dica bônus: os melhores fones para produção musical
Se você quer se tornar um produtor de música eletrônica, precisa ter em mente que, ao menos no início, não é necessário um grande investimento em equipamentos. Um bom computador, um DAW (falamos deles aqui) e uma fonte de monitoramento costumam ser o suficiente. Se estiver dentro das suas possibilidades, uma interface de áudio também é uma boa ideia.
E quando falamos de uma fonte de monitoramento, se quisermos pensar em baixo custo, inevitavelmente a escolha recai sobre os fones de ouvido. Você pode se perguntar porque um par de fones ao invés de um par de monitores (caixas), e os motivos são bastante simples:
– Em geral, um bom fone de ouvido para monitoramento sai mais barato que um par de bons monitores. Aliás, monitores normalmente são vendidos em unidades e não em pares – então, se você entrar em uma loja online, por exemplo, é quase certo que o preço que você vai encontrar é de uma caixa só.
– Também é quase certo que o local onde você vai começar a produzir não é acusticamente tratado. Nesse caso, um par de fones de ouvido vai te dar uma resposta mais precisa do que um par de caixas, por conta da reverberação do ambiente e e de ruídos externos.
É mais interessante para quem quer iniciar na produção de música eletrônica investir em um bom par de fones. Assim, você pode economizar para investir em educação musical, como um curso de produção musical, por exemplo. Existem vários modelos no mercado, e os preços costumam variar bastante, não só porque seus preços costumam ser em dólar, mas porque alguns não são fáceis de achar por aí. Separamos três fones que não custam nenhum absurdo e que valem o investimento. Confira:
Sennheiser HD-280 Pro
Difícil não lembrar da Sennheiser quando o assunto é monitoramento – há décadas os fones da fabricante alemã são referência no segmento. O HD-280 Pro é um fone bastante robusto, com uma qualidade de construção sólida e um excelente isolamento acústico, além de uma resposta de frequências bem plana, algo essencial em um fone para produção.
Sony MDR-7506
Assim como o Sennheiser, o Sony MDR-7506 é figurinha carimbada nos estúdios mundo afora, principalmente pela sua durabilidade. É largamente usado em diversos ambientes de monitoração, como estúdios e unidades móveis de TV e rádio. É o tipo de equipamento que, se bem cuidado, vai passar alguns anos com você.
Audio-Technica ATH-M50x
Pouco conhecida fora do meio profissional no Brasil, a fabricante japonesa se destaca pela qualidade e robustez dos seus produtos. O ATH-M50x é um dos fones de entrada da marca, mas que não deixa absolutamente nada a dever se comparado com os irmãos “maiores” da empresa.
Por fim, tenha em mente alguns aspectos antes de comprar um fone para produção musical:
– fones fechados possuem um melhor isolamento acústico que os semiabertos. Se você vai trabalhar em um ambiente ruidoso, prefira os fechados.
– ao contrário dos fones para DJs ou para uso diário, um bom fone para produção não deve “forçar” nenhuma frequência, ou seja: o som dele deve ser bem “plano”, sem que nenhuma das frequências se sobressaia.
E aí, curtiu? Esperamos que essas dicas sejam úteis para os seus primeiros passos na produção musical.